[Marcha-sp] Textos para o debate - Regulamentação da prostituição e a vida das mulheres-
Marcha Mundial das Mulheres
marchamulheres em sof.org.br
Sexta Janeiro 18 07:26:32 PST 2013
Companheiras,
Abaixo estamos circulando 3 documentos, o primeiro é uma matéria do deputado federal do PSOL, Jean Wyllys que propõe a regulamentação da prostituição antes da copa. O segundo e terceiro são artigos de nossas companheiras da Marcha debatendo sobre o mesmo assunto.
Queremos, com o envio deste material, fomentar esse debate tão importante e que tanto tem a ver com nossas vidas.
Saudações feministas
Marcha Mundial das Mulheres
SOMOS MULHERES ENÃO MERCADORIA!
15/01/2013 - Deputado quer aprovar até a Copa projeto de lei que regulariza a prostituição no Brasil
Ter, 15 de Janeiro de 2013 16:17
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(Uol notícias) Em um prostíbulo, mulheres adultas são forçadas a prestar favores sexuais e a conviver com menores exploradas. O dinheiro fica para o cafetão e, se alguém denunciar, corre risco de morte. Embora criminosa, esta cena não é tão excepcional quanto parece --ela faz parte do cotidiano de muitas cidades brasileiras.
No Brasil, prostituição não é crime, é uma profissão legalizada. Ilegais são as casas de prostituição, o que dá margem aos mais diversos tipos de abusos e corrupção.
Foto 4 de 6 - Invariavelmente o trabalho é visto como temporário pelas próprias garotas de programa Mais Leonardo Soares/UOL
De olho no aumento da exploração sexual durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) protocolou um projeto de lei na Câmara dos Deputados para regularizar a profissão das prostitutas. Ele quer que a proposta seja aprovada até 2014, para evitar a proliferação de casos como o divulgado no último dia 10, quando uma jovem conseguiu fugir de uma casa onde era explorada sexualmente e mantida em cativeiro, em São Paulo.
Não é a primeira vez que uma iniciativa como a de Wyllys é levada a cabo no Brasil. O ex-deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) já havia protocolado um projeto semelhante durante seu mandato (1995-2011), mas o texto foi arquivado após ele deixar a Câmara. Agora, o diálogo com as prostitutas voltou a ganhar força, com a expectativa gerada por estes dois grandes eventos esportivos.
Em entrevista ao UOL, Jean Wyllys explicou a necessidade de um projeto como este, enfatizando sempre a urgência da regularização das casas onde são prestados serviços sexuais e a diferença entre prostituição e exploração sexual.
UOL - Por que um projeto de lei que regulamente o trabalho das prostitutas?
Jean Wyllys - Há uma demanda pelo serviço sexual das prostitutas e dos prostitutos, pois a prostituição não é só feminina. Essas pessoas existem, elas são sujeitos de direitos. As prostitutas se organizaram em um movimento político nos anos 70 e início dos anos 80, um movimento que no Brasil foi encabeçado principalmente pela Gabriela Leite, fundadora da grife Daspu e presidente da ONG Da Vida. O projeto é um esforço de atender à reivindicação deste movimento. Tais reivindicações estão em absoluto acordo com a minha defesa pelas liberdades individuais, pela defesa dos direitos humanos de minorias, ou seja, não é uma pauta alienígena ao meu mandato, ao que eu defendo, como os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, a descriminalização das drogas e os direitos dos LGBTs. Já houve uma tentativa de atender à demanda deste movimento antes [com o ex-deputado Gabeira], e eu retomei. Então temos uma segunda tentativa agora, com um projeto mais bem-elaborado e construído em parceria com o movimento social. Antes de eu protocolar esse projeto, ele foi submetido a várias reuniões com lideranças do movimento das prostitutas e com feministas. Foi um projeto amplamente discutido.
UOL - Em que pé está a tramitação do projeto na Câmara?
Wyllys - O projeto está agora na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, onde será relatado pela deputada Érika Kokay (PT-DF), que é favorável a ele. Em seguida, vai para a Comissão de Seguridade Social e Família e, depois, para plenário. Mas esse projeto tem um objetivo maior, que é garantir dignidade às profissionais do sexo, reconhecer seus direitos trabalhistas. Atualmente, elas não contam com dignidade, são exploradas por redes de tráfico humano, por cafetões e por proxenetas. Por que isso acontece? Porque a prostituição não é crime no Brasil, mas as casas de prostituição são. E são poucas as prostitutas que trabalham de maneira absolutamente autônoma, sem precisar de um entorno e de relações. Então, a maioria delas acaba caindo em casas que operam no vácuo da clandestinidade. O projeto quer acabar com isso. Garantir, portanto, direitos trabalhistas e uma prestação de serviço em um ambiente absolutamente seguro. Outro objetivo do projeto é o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes. Um erro muito cometido pela imprensa, um erro comum, é falar em prostituição infantil. Não existe prostituição infantil. A prostituição é uma atividade exercida por uma pessoa adulta e capaz. Se uma criança faz sexo em troca de dinheiro, em troca de objetos, seja lá o que for, esta criança está sendo abusada sexualmente, e exploração sexual é crime. Atualmente, muitas crianças são exploradas em casas de prostituição, justamente porque essas casas são ilegais, elas não têm fiscalização. Quando a polícia consegue investigar uma casa, o policial acaba recebendo propina. E as prostitutas adultas não podem sequer denunciar. Se denunciarem, o proxeneta mata. É uma situação que não pode continuar. O que pode resolver este estado de coisas é um projeto que regulamente a atividade das prostitutas e torne legais as casas de prostituição.
UOL - Então o projeto está focado na legalização das casas?
Wyllys - Exatamente, porque a prostituição não é crime no Brasil. A prostituição é estigmatizada e marginalizada, mas não é crime o que a prostituta faz, ela não é uma criminosa. O que é crime, segundo o Código Penal, é a casa de prostituição. Só que, ao fazer da casa de prostituição um crime, a prostituta é taxada como criminosa, porque nenhuma prostituta é autônoma a ponto de trabalhar sozinha. E, embora a casa de prostituição seja crime, eu, você, toda a imprensa e a polícia sabe que há casas de prostituição funcionando. Se estão funcionando no vácuo da ilegalidade, alguém está permitindo que funcionem assim, alguém está recebendo propina para não denunciá-las. Temos aí o crime da corrupção policial como um crime decorrente da ilegalidade das casas. Então, é melhor para todo mundo que as casas operem na legalidade, que o Estado possa recolher impostos, fiscalizá-las, levar políticas públicas de saúde da mulher e, sobretudo, proteger as crianças e adolescentes.
UOL - O projeto de lei contempla apenas prostitutas mulheres acima dos 18 anos ou outras formas de prostituição, como a masculina e a de travestis?
Wyllys - Todas as pessoas adultas e capazes, incluindo as mulheres transexuais, as travestis e os garotos de programa. Então, a ideia é para todos, é um projeto que vai se aperfeiçoar na medida em que ele for sendo relatado, porque a cada relatoria novas questões vão sendo incorporadas. Num primeiro momento, eu ouvi muito mais as mulheres, é verdade, porque esse movimento está organizado desde o final dos anos 70. Os garotos de programa não se mobilizaram em um movimento político, eles existem como um coletivo disperso.
UOL - Há um prazo para o projeto ir a plenário?
Wyllys - Não, não há um prazo, porque tem a tramitação nas comissões. Eu vou colocar todas as minhas relações na Câmara para fazer o projeto tramitar, e é claro que eu vou contar com aliados, porque haverá uma bancada que provavelmente vai se opor ao projeto, e vai se opor por puro moralismo. A oposição que eu vou ter é esta, é uma oposição moral. Mas eu vou concentrar todos os meus esforços para fazer o projeto tramitar o mais rápido possível, antes da Copa do Mundo. Talvez converse com as lideranças da bancada do PT, que são prováveis aliados, com bancadas de esquerda e com a bancada feminina, que é uma bancada controversa, porque não há um consenso nesta bancada sobre a prostituição.
UOL - Quais as principais barreiras para a aprovação do projeto no Congresso?
Wyllys - Essa bancada moralista, a bancada conservadora que reúne evangélicos fundamentalistas, católicos fundamentalistas e conservadores laicos, que não são católicos nem evangélicos, mas são conservadores, hipócritas, moralistas.
UOL - E as principais barreiras na sociedade na luta pelos direitos das profissionais do sexo?
Wyllys - Eu não sei dizer, não vou falar em nome de toda a sociedade, detesto essa generalidade. A sociedade é muito diversa para eu falar em nome dela. O que posso dizer é que, desde que protocolei esse projeto, tenho recebido reações de apoio que me surpreendem, que vêm de pessoas que eu nem esperava que fossem apoiar. E, ao mesmo tempo, claro que apareceram vozes dizendo que o deputado Jean Wyllys quer incentivar a prostituição. É um discurso rasteiro. Eu não quero incentivar a prostituição, as prostitutas existem, elas estão aí prestando serviço, e, se há um serviço, há demanda. A sociedade que estigmatiza e marginaliza a prostituta é a mesma sociedade que recorre a ela. Eu não estou inventando este estado de coisas. Na narrativa mais antiga produzida pela humanidade, a prostituição já é citada. Não é à toa que dizem que é a profissão mais antiga do mundo. Eu quero dar dignidade a estas profissionais, sobretudo o proletariado. Pois aquela prostituta de classe média alta que divide um apartamento no Rio ou nos Jardins de São Paulo talvez seja menos vulnerável que o proletariado da prostituição, que depende das casas e de exploradores sexuais. Eu quero proteger os direitos delas, garantir a dignidade e combater a exploração sexual de crianças e adolescentes. Qualquer pessoa de bom senso entende isso e se coloca a favor do projeto. Quem tem se colocado contra é quem quer deturpar deliberadamente o projeto ou pessoas muito moralistas, que acham que a prostituição é um mal em si. E aí não adianta você argumentar que é uma questão de liberdade individual, que uma pessoa adulta pode escolher ser prostituta. Se as pessoas não compreendem isso, vão achar sempre que a prostituição é uma desgraça.
UOL - Que situação o senhor visualiza no Brasil durante a Copa e as Olimpíadas?
Wyllys - Eu acho que vai haver um aumento da demanda por serviços sexuais, porque haverá muito mais turistas. As pessoas vão prestar esses serviços, então que elas prestem os serviços dentro de regras mínimas, que proteja tanto um quanto outro. Quantos turistas não são levados por redes de exploradores de prostitutas, em que elas servem de laranja para um crime? É para proteger ambos os lados, não só o lado de quem oferta o serviço, mas também de quem demanda.
UOL - O senhor conversa com prostitutas sobre as perspectivas para esses dois eventos esportivos?
Wyllys - Sim, claro. Como eu disse, esse projeto foi construído com elas. Estive com prostitutas no Pará, na Bahia, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais. E por meio de redes sociais. É uma demanda das prostitutas, que encontraram no meu mandato o diálogo que elas tinham antes com o Gabeira. Eu sou o único deputado hoje que pode abrir o mandato para essa demanda. Os deputados têm medo dessa pauta, têm medo de serem estigmatizados por essa pauta, de serem difamados e de perder as eleições. Eu não tenho medo de perder as eleições, não nasci deputado, sou professor universitário e jornalista. Se eu não conseguir me reeleger na próxima eleição, tenho meu trabalho, minha profissão. Então, eu não vou temer defender uma minoria. As prostitutas têm uma perspectiva em relação à Copa do Mundo e às Olimpíadas de que a exploração vai aumentar, elas vão ser expostas a uma violência ainda maior, a integridade das crianças e adolescentes vai estar ainda mais ameaçada.
UOL - Como o senhor avalia o surgimento de movimentos neofeministas como o ucraniano Femen, que realiza protestos na Europa contra a prostituição?
Wyllys - Existem feminismos no plural, e não feminismo. Eu não vou falar do Femen, porque não conheço essas meninas, para além de elas colocarem o peito na rua. Mas eu conheço o feminismo de longa data, eu me considero feminista e tenho muitas amigas feministas. Há um feminismo de viés esquerdista e socialista que é abolicionista, ou seja, quer abolir a prostituição, porque considera a prostituição um subproduto do regime capitalista. Esse discurso é equivocado, na medida em que antes do capitalismo já existia a prostituição. De mais a mais, todos somos mercadoria numa sociedade capitalista, todos nós vendemos a nossa força de trabalho, utilizamos o nosso corpo para empreender e executar esse trabalho. Não é por conta disso que a gente vai negar a uma categoria os direitos trabalhistas. O outro equívoco desse feminismo socialista é que ele advoga pela autonomia da mulher sobre o seu corpo, e aí quer tutelar o corpo da mulher dizendo que ela não tem o direito de prestar um serviço sexual com o seu corpo. Que história é essa? Então você faz um discurso de que quer libertar a mulher e de que a mulher é dona de seu corpo, que não se pode tutelar o corpo da mulher, para tutelar o corpo da mulher? Ora. Tanto é que na França há um embate entre a ministra dos Direitos das Mulheres [Najat Vallaud-Belkacem, que é feminista abolicionista] e o movimento das prostitutas, que dizem "nós escolhemos ser prostitutas, não somos vítimas. A gente só quer trabalhar com dignidade e garantir os nossos direitos". Ou seja, a mulher tem que ter autonomia sobre o seu corpo, inclusive para se prostituir, se ela quiser. E há ainda um terceiro ponto no discurso dessas feministas, que as coloca ao lado da Igreja. Se estas feministas lutam pelo direito ao aborto, como elas podem dar mão à igreja contra o direito à prostituição? Não lhe parece um paradoxo, que elas defendam o direito ao aborto e neguem à mulher o direito a se prostituir? Isso é moralismo e um policiamento da sexualidade feminina.
Acesse em pdf: Deputado quer aprovar até a Copa projeto de lei que regulariza a prostituição no Brasil (Uol notícias - 15/01/2013)
http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/index.php?view=article&catid=44%3Anoticias&id=4221%3A15012013-deputado-quer-aprovar-ate-a-copa-projeto-de-lei-que-regulariza-a-prostituicao-no-brasil&format=pdf&option=com_content
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A "regulamentação" da prostituição e a vida das mulheres
18 de Janeiro de 2013 Por clagp 1 Comentário
Clarisse Goulart Paradis*
Nos últimos dias, com a aproximação da Copa do Mundo e com a execução de todos os seus preparativos, o projeto de lei do Dep. Jean Wyllys esteve em pauta, provocado pelo discurso da "regulamentação" da prostituição, envolto na necessidade de estruturar a indústria do sexo para o aumento do turismo no próximo período. A partir disso, li os poucos artigos que constam no seu conteúdo. Parece banal, mas um PL que trata de um assunto tão complexo, que pretende "resolver" o problema das pessoas em situação de prostituição, contém apenas seis artigos.
Existem alguns pontos perversos nesse projeto. Um deles diz respeito à categorização da exploração sexual. Segundo o mesmo há esse tipo de exploração quando não houver pagamento do "serviço sexual", quando a prostituição for forçada, mediante grave ameaça ou violência, ou quando uma terceira pessoa apreender entre 50% e 100% do valor do programa. Essa categorização tem duas conseqüências graves - ela legaliza o "cafetão" como essa terceira pessoa que apreende até 50% do valor do programa, algo que ainda não era formalizado no contexto brasileiro e deturpa a ideia de exploração sexual.
Fonte: Blog da Diretoria de Mulheres da UNE
Ao separar a prostituição da exploração sexual, o serviço sexual livre, do serviço sexual forçado, há uma intenção de reconhecer de maneira oficial a prostituição como uma solução possível para os problemas das mulheres, de legitimar o discurso da profissão do sexo como um disfarce para despenalização da cafetinagem. Isso alimenta um sistema lucrativo, nacional e internacional de exploração das mulheres, em busca de alimentar uma sexualidade masculina, construída como insaciável, incontrolável, irresponsável e que, portanto, necessita a todo o tempo da disponibilidade de corpos femininos em sua maioria, para a "satisfação" do seu querer sexual. Como nos mostra o verbete sobre o tema no dicionário crítico do feminismo:
"O grande mercado liberal assimila e monetariza os prazeres: a lógica consumista invade todos os domínios da vida e a expressão "trabalhadoras do sexo" legitima a ideia de que a mercadoria sexo se tornou um dado indiscutível da economia moderna. Toda noção ética é então varrida, toda relação de dominação é engolfada por uma lógica individualista. A prostituição se encontra assim excluída das formas de violência contra as mulheres" (Legardinier, 2009, p.200).
Além de legalizar a ação dos cafetões, o projeto de lei prevê o livre funcionamento das casas de prostituição. Para não dizer que o projeto não prevê nada sobre a vida e situação das pessoas em prostituição, ele garante a prestação de serviços em cooperativas ou de maneira autônoma e aposentadoria especial, após 25 anos de serviço.
Nesse contexto, o projeto pouco contribui para a vida das mulheres prostitutas. O Ministério do Trabalho já reconhece a prostituição como ocupação regular e a previdência social assegura o seu direito de contribuir para o INSS (não em regime especial como prevê a lei). O que vale ser chamado a atenção é que esta lei não visa melhorar a vida das mulheres prostitutas, não prevê nenhum tipo de política pública específica, que contribua para que essas mulheres não tenham que ser constantemente vítimas de insultos, violência e marginalização. Ao contrário de promover os direitos e a autonomia econômica das prostitutas, o projeto visa suprir uma necessidade da indústria sexual, que juntamente com as grandes corporações, buscam utilizar o corpo das mulheres para faturar altos montantes em grandes eventos como a Copa do Mundo.
Ao normalizarmos a ideia da prostituição na vivência social, estamos contribuindo para mascarar as formas de violência contra as mulheres, para naturalizar a ideia de dominação masculina e para alimentar um sistema econômico extremamente articulado e lucrativo que explora o corpo de mulheres e meninas. Não é por acaso que o P.L circula nesta conjuntura e envolto do discurso da regulamentação. Não é por acaso que o discurso de direitos das prostitutas só aparece em tempos de Copa do Mundo. Ao contrário desse projeto de lei, é preciso garantir uma vida sem qualquer tipo de violência para todas as mulheres, é preciso que o exercício da nossa sexualidade esteja livre do estigma da mercantilização dos nossos corpos e também do cerceamento e moralismo religioso. Nem santas, nem putas, buscamos que todas as mulheres sejam livres!
Referência:
LEGARDINIER, Claudine. Verbete: Prostituição I. In: HIRATA, Helena et all. Dicionário Crítico do Feminismo. Editora Unesp, 2009.
*Militante da Marcha Mundial das Mulheres em Minas Gerais.
http://marchamulheres.wordpress.com/2013/01/18/a-regulamentacao-da-prostituicao-e-a-vida-das-mulheres/#comments
A vida das outras
14 de Janeiro de 2013 Por ofensiva 1 Comentário
* Por Alana Moraes.
O recente caso noticiado sobre o estupro coletivo sofrido por uma jovem indiana de 23 anos parece ter comovido de maneira bastante intensa a opinião pública internacional. É difícil não se abalar com o caso e todos os requintes de violência encontrados no corpo da jovem estudante que bravamente lutou por sua vida durante duas semanas. O estupro talvez seja a manifestação mais drástica da violência machista, uma violação da integridade do corpo e da autonomia que pretende anunciar de maneira brutal, entre outras coisas, o fato de que a mulher não tem possibilidade de escolhas sobre o seu próprio corpo, o fato de que o corpo da mulher é, no limite, inscrito na ordem na sujeição, da subordinação e alienação dos próprios desejos.
O que me incomodou, no entanto foram algumas análises produzidas sobre o caso indiano. No momento em que eu acompanhava um noticiário um amigo ao lado me questionou: "mas porque será que essas coisas acontecem na Índia?". Sua pergunta na verdade revelava o fundo de toda a repercussão dada ao caso: Por que será que ainda pensamos que o estupro só acontece na vida das outras, em uma realidade distante e incompreensível? Certamente porque temos medo de encarar o fato de que a prática do estupro está intimamente vinculada com a reprodução cotidiana do machismo na tentativa de domesticação violenta dos nossos corpos seja na Índia ou na Suécia e porque o estupro traz consigo uma outra face dessa violência que é o silêncio de suas vítimas, extremamente vulneráveis e que temem o sofrimento da exposição pública.
A prática do estupro desmancha as fronteiras entre o norte e o sul, entre democracias e ditaduras, ricas e pobres, entre nós e as outras e tudo que ameaça as fronteiras é temerário para uma sociedade ocidental cujos pilares se constroem a partir das grandes divisões.
Fundamentalmente os casos de estupros só aparecem quando a mulher violentada é a mulher do outro, seja a esposa ou a filha: os estupros domésticos ainda são cotidianamente silenciados porque de certa forma estão inscritos dentro do direito legitimo de posse do homem que agride o que supostamente é seu de direito.
Neste último sábado o caderno Prosa e Verso do jornal O globo publicou um artigo de Manu Joseph, editor de uma revista semanal indiana, no qual ele discutia o problema dos casos recorrentes de estupro na Índia. Para resumir o autor defende a idéia de que a violência praticada pela ação do estupro é produto de uma "cultura tradicional, camponesa e atrasada": "Porque a Índia não cidades de verdade? Porque as cidades necessitam de uma massa critica de pessoas liberais, ou pelo menos de uma elite, para ser um pouco independente, livre de suas raízes culturais, familiares e comunitárias." Uma outra reportagem produzida pelo NYT e reproduzida pelo portal do IG conclui que "Os maus-tratos e abuso contra mulheres são um grande problema especialmente em Nova Délhi e no norte da Índia. A mentalidade social patriarcal, uma cultura de abuso do poder político, um desdém generalizado em relação à legislação, uma força policial em grande parte insensível e uma população de migrantes sem raízes, sem lei, são apenas algumas das razões."
O debate poderia ser longo. Poderia começar, por exemplo, com o questionamento de que o estupro é fruto de uma "cultura" seja ela de qualquer tipo. Culturalizar o estupro é, sobretudo um erro político: é tentar explicar um pratica de violência ancorada nos valores de uma sociedade machista e patriarcal em uma gramática particularista. Ou se abandona de vez a explicação "cultural" do estupro ou é preciso admitir que o estupro é uma cultura universal, masculina e patriarcal, não esquecendo que o país - segundo a ONU - que os maiores índices de estupros registrados em 2010, por exemplo, estão localizados nos Estados Unidos.
Uma coisa assustadora acontece quando tentamos compreender o estupro em uma chave cultural, tradicional e comunitária: acabamos por invisibilizar o estupro enquanto pratica recorrente de nossa sociedade supostamente "moderna". Na minha cidade, por exemplo, o Rio de Janeiro, os índices de estupro estão cada vez mais alarmantes. Em 2010 os casos aumentaram em 20%, a mesma taxa de crescimento observada na Bélgica também. Em São Paulo, essa pequena cidade tradicional, em média, 11 mulheres são estupradas por dia. Dados levantados pela Fundação Perseu Abramo revelam que entre as mulheres entrevistadas em São Paulo e Pernambuco, aproximadamente uma em cada três diz ter sofrido violência.
Vivemos em tempos difíceis onde o senso comum dominante, reforçado pela "opinião pública" insiste em consolidar uma idéia de que a igualdade entre homens e mulheres já foi alcançada, de que a luta feminista é um tanto quanto fora de moda nos países "modernos" ocidentais. Ainda que a prática do estupro por vezes seja corroborada por crenças religiosas fundamentalistas, ainda que a violência contra mulher possua nuances diferenciadas e significadas de diferentes formas ela ainda é permanente e transcultural, ainda faz parte da dominação machista sob qual todas nós vivemos. Ela ainda é violência e opressão sexista: de Bruxelas à Nova Deli. É assustador para o projeto de civilização ocidental pensar que a violação dos corpos femininos a partir do uso da força seja uma pratica constitutiva de nossas sociedades.
Corrermos o risco de que a "cultura" seja entendida como algo imutável e de que a pratica da violação sexual seja etnocentricamente atribuída aos povos
"não-modernos", como mais um elemento pitoresco de suas praticas. Ao contrário: ou aceitamos que a violência machista e patriarcal que viola nossos corpos e nosso direito de ser gente é moderna, porque é peça central da engrenagem da sociedade desigual em que vivemos ou ficamos com a suspeita de que "jamais fomos modernos" já que temos que conviver cotidianamente com praticas brutais de violência e opressão.
1 bilhão de mulheres, ou uma em cada três do planeta, já foram espancadas, forçadas a ter relações sexuais ou submetidas a algum outro tipo de violência. A luta feminista precisa ser mais do que nunca uma luta internacional porque acreditamos mais na cultura da política - na cultura militante do convencimento de nossas idéias - do que na política da cultura que insiste em embalsamar as práticas machistas como se estas pertencessem à um outro mundo que não o nosso, à um outro tempo que não o nosso.
Continuaremos em marcha até que todas sejamos livres! Por nós, por Jyoti Singh Pandey, por todas.
*Alana Moraes é militante da Marcha Mundial das Mulheres no Rio de Janeiro.
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